Caminhamos para a morte! - afirmava, não faz muito tempo, o grande filósofo existencialista, Martim Heidegger (+ 1976). É inexorável e incontornável tal verdade. Alguns conseguem, com significativo esforço, perdurar um pouco mais: chegam aos 90 ou até passam dos 100. Afinal, o que são 100 anos diante da complexidade e da capacidade do ser humano de reinventar-se, de construir teias de sentido e, de certa forma, participar da própria criação? Não significa, do ponto de vista da racionalidade, absolutamente nada. A morte é implacável com todos nós.
Os primeiros cristãos deram o passo decisivo: viveram o encontro com o ressuscitado. A partir daí, confessaram que Deus estava presente no fracasso e no martírio de Jesus. Descobriram, a partir da experiência pascal, que a dor e a morte não são da vontade de Deus. Presentes no mundo pelas limitações do tempo e do espaço e, sob o ponto de vista moral, como consequência do pecado, as enfermidades podem ser ocasião de amadurecimento espiritual. A experiência com o Ressuscitado, além de encorajar os primeiros cristãos frente ao contexto de perseguição, produziu uma nova perspectiva na existência: a morte, fenômeno físico-bio-psíquico, não tem a última palavra. O discurso derradeiro é a ressurreição.
No cumprimento da missão, os discípulos “expulsam demônios e ungem com óleo muitos enfermos e os curam” (Mc 6,13). O próprio Jesus havia garantido aos seus seguidores: “Imporão as mãos aos enfermos e os curarão” (Mc 16,18). Imposição das mãos é o gesto simbólico para transmitir o Espírito ou força de Deus que cura e salva. Mas, que tipo de cura?
Do ponto de vista da sacramentologia, o enfermo pode celebrar o sacramento da Unção dos Enfermos. Até bem pouco tempo, este sacramento mais que designado de Extrema Unção era efetivamente celebrado como tal. A família no derradeiro momento da existência, depois que a ciência médica definia como irremediável o prosseguimento da vida do paciente, chama o presbítero para que reze. Hoje cresce a consciência de que tal sacramento não se restringe, apenas, ao momento de passagem; como remédio, destina-se a todos os batizados/as que, de alguma forma, estão sob risco de vida: os anciãos com idade acima de 65 anos e as pessoas que serão submetidas à intervenção cirúrgica. Porém, não se trata de um acontecimento desconectado do conjunto da vida cristã. O fiel, diante do mistério da fragilidade de sua saúde, celebra pascalmente a presença da força de Deus que não deseja a morte, mas a vida do crente.
Fica evidente que a grande cura oportunizada pela Unção refere-se ao conforto e ânimo espirituais naquele que se sente vulnerável diante da existência. Nem sempre se obtém a cura física, propriamente dita, mas – na penumbra da fé – alcança-se a cura espiritual que traz sentido novo ao sofrimento.
Caminhamos para a morte! É um lado da verdade. Existe outro: Caminhamos na história para a vida eterna que já é presença! Não se trata de duas vidas absolutamente apartadas. Por isso, o sacramento da Unção, além de perdoar os pecados, é o sacramento da esperança de vida e de vida em plentitude. O temor diante da morte iminente e os sobressaltos da fragilidade da saúde já não possuem a força impactante de outrora.
Pe. José Augusto da Silva – Pároco Matriz São José (Machado) e Professor na FACAPA (Pouso Alegre)
E-mail: josausilva@yahoo.com.br
Comentários
Obrigada, por este texto, tenho a alegria de morar em uma Paróquia, cujo Pároco foi aluno seu, e bom ouvinte nos Cursos e da voz daq igreja.
Este assunto, mexe tanto com o povo, com suas mil e uma interpretações, encontra resposta e consolo, inteligente, esclarecido, ajuizado, em Pes. como vocês. Abraço
Sara, paróquia São José
São José da Barra – MG
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