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Vocação: chamado do Tempo para Deus por Padre José Augusto

14 out 2011 - 0 comentário

Vivendo as contradições do tempo presente no seu processo de encarnação e assimilação histórica, o ser humano é chamado pela própria história, a olhar para além do que a vista pode alcançar. Nesse caso, entendemos a vocação espiritual propriamente dita. O ser humano se dá conta de que – além das explicações científicas, além das reflexões filosóficas – algo o incomoda e o aguça a ir mais fundo. Os discursos se tornam inoperantes e apenas balbuciam aquilo que nosso espírito, tocado pela Graça, busca compreender.


Apesar das variadas propostas de crenças elencadas pelas inúmeras culturas de ontem e de hoje, o ser humano sente-se incitado a ir além da esfera meramente religiosa. Insatisfeito com sua estatura mística, parte em busca do inonimável, do transcendente, do totalmente Outro.


No caso dos cristãos católicos, é o momento da grande e preciosa crise: é o Getsêmani (cf. Mc 14,32-36). Ocasião de revisionamento e adequação do que se crê com o que se vive. Confrontos inevitáveis, radicalização de questionamentos sobre o sentido maior de sua vida são amostras resumidas do que se passa na vida pessoal de cada vocacionado pelo Tempo para Deus.


Se, por um lado, as práticas religiosas são relativizadas, já que são corrimãos de uma escada, por outro, elas podem muito contribuir para a resposta a esse chamado. Pensemos, por exemplo, na questão da Ceia do Senhor, dominicalmente celebrada pelos católicos. Naquele momento em que somos transportados para o calvário de Jesus e, ao mesmo tempo, experimentamos o mistério profundo de sua ressurreição, ultrapassando os limites da ritualidade, somos devolvidos à experiência histórica como quem experimentou algo que transcende a própria história: Deus se faz comida!


E é na concretude da história, solícitos aos seus apelos, que – eucaristizados – mostramos ao mundo o sentido profundo da comunhão com Deus. Levamos aos confrontos históricos nosso ser desejoso de tornar-se comida e bebida àqueles que têm sede e fome de justiça, de fraternidade, de esperança, de caridade, de beleza e, numa expressão, de sentido pra viver. Levamos a sério nossa vocação samaritana (cf. Lc 10,29-37).


É nessa dimensão que qualificamos nossa autobiografia, não nos resignando ao pessimismo infundado ou ao otimismo ilusório, mas na força e presença Daquele que nos chamou, recebemos o verdadeiro imprimatur à nossa existência. Nossa autobiografia se converte em uma teografia, uma carta de amor escrita pelo próprio Deus (cf. 2Cor 3,3).


   Pe. José Augusto da Silva – Pároco Matriz São José (Machado) 

   Professor na FACAPA (Pouso Alegre) 

   E-mail: josausilva@yahoo.com.br

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